sábado, 31 de janeiro de 2015

A vaca:

O presente texto traz uma reflexão sobre as sucessivas reformas pontuais da previdência social nesses últimos 20 anos, conforme os apontamentos do blog Boitempo. A sucessão de emendas constitucionais ou atos infracionais trouxeram prejuízos para a classe trabalhadora, ainda mais agora, na época atual, com as medidas tomadas pelo Governo Dilma Rousseff.
O trabalhador, com medo de que não haverá benefícios previdenciários futuros, defende a redução dos direitos dos trabalhadores inativos. Não é notado que o trabalhador inativo foi alguém que esteve sujeito à contribuição e não ganha, em geral, pouco mais do que um salário-mínimo, o que ocorrerá com o futuro trabalhador inativo, aquele que defende reformas para que se tenha dinheiro no futuro. A previdência do setor privado corresponde a um déficit de cerca de mais de 20 bilhões de Reais no primeiro semestre de 2014, segundo os arautos da catástrofe. Assim, de acordo com Marx, a gestão do bem comum feita pelo Estado foi tomada pela racionalidade do capital. Significa que o Estado legitima a troca da satisfação das necessidades humanas (valor de uso) pelo atendimento aos desígnios mercadológicos (valor de troca). Chega-se a circulação complexa, o Dinheiro-Mercadoria-Dinheiro (D-M-D') acrescido de algum valor. Para tanto, apropria-se do trabalho alheio, gera-se valor que se acrescenta dinheiro obtido pela venda de mercadoria (D'). Valor de troca é o trabalho excedente, aquele que acrescenta valor ao dinheiro e é oriundo do trabalho produtor de valor de uso, aquele trabalho que atende exclusivamente às necessidades vitais rudimentares do trabalhador. A grande limitação da política pública é ser tratada como valor de troca. Dito de outro modo, o trabalhador tem tido os valores vertidos para um sistema inserido num contexto de cumprimento de metas fiscais e geração de valores para atender ao superávit primário, viabiliza instrumentos para suposta geração de empregos (precarizados, nas poucas oportunidades em que isto se dá) por meio de desonerações previdenciárias ao capital. Isto tudo culmina com a última reforma promovida, no final de 2014, pelo governo Dilma, que desfere o golpe mais violento à proteção social previdenciária. Desconstroem-se direitos sociais pela via estatal, provoca-se a cisão da classe trabalhadora graças ao Estado. A previdência social passa a ser peça chave para o cumprimento de metas referentes ao superávit primário, ajuste fiscal e controle da inflação. Numa certa perspectiva, é necessário consolidar direitos sociais, mas, olhando em conjunto, tais direitos representam mais dos fatores de intensificação de mais-valia do capital perpetrado pela atuação do estado.



sexta-feira, 30 de janeiro de 2015


A Metamorfose:
 Toda a ideia precisa ser executada por meio de uma instituição. No entanto, nossas instituições são presididas por uma lógica nefasta. As multinacionais apenas querem lucro e as burocracias estatais estão mergulhadas no lamaçal da corrupção. Reverter essa lógica nefasta significa mudar os objetivos da administração burocrática dessas instituições. Arlindo Carvalho Rosa, no artigo “Accountability na Administração Pública: Modelos Teóricos e Abordagens”, aponta que accountability é a prestação de contas dos órgãos públicos com instâncias superiores ou com a população. Accountability social significa a pressão política exercida pela sociedade e a institucional implica na mútua fiscalização entre os poderes políticos. No modelo de administração pública tradicional, há o pressuposto de a vigilância da sociedade acontece apenas em relação aos eleitos, enquanto os administradores devem seguir impessoalmente as ordens de instância superiores, somente. Limita-se a ficar restrito à configuração formal da administração pública. Porém, há uma falta de accountability institucional, faltam formas de avaliar a execução de políticas públicas. Por outro lado, no modelo de nova gestão pública, emula-se a iniciativa privada, trata-se o cidadão como consumidor, atende-se as preferências dele e dá-se ênfase na privatização. É permitido que o administrador fixe metas com autonomia. Mas, o fato da competência do administrador ser discricionária pode implicar em desvios de poder. Além do mais, como se trata de um modelo mais flexível, como avaliar os resultados obtidos? No modelo de novo serviço público, busca-se o interesse público. O problema surge quando se consta que não são definidos mecanismos pelos quais os agentes públicos são responsabilizados pela sociedade. Busca-se, no livro “Modelo de Excelência em Gestão Pública”, o fundamento para dar resolutividade para essas soluções. O princípio da legalidade, os objetivos da República, o princípio da centralidade dos direitos individuais e sociais, princípio da descentralização federativa e princípio da participação social na governança das instituições ofereceram a teoria para tanto. A gestão pública de excelência reproduz o ciclo PDCA (P: plane; D: do; C:check;P: plane; D: do; C:check; A:action), um modelo baseado num ciclo de melhorias contínuas que abarcam as dimensões da gestão pública, a saber: governança, público-alvo, planos, interesse público, pessoas, processos, informação e resultados. No escopo da gestão, o bloco do planejamento (governança, estratégia, planos, sociedade, interesse público e cidadania) dá a direcionalidade para o processo. Há, também, o bloco da execução, constituído pelas dimensões de pessoas e processos. Ambos os blocos representam o centro prático da ação organizacional e movem toda a ação. A qualidade do sistema de gestão é julgada conforme os resultados. Por último, o quarto bloco, de informação e conhecimento, possibilita a oportunidade de melhorar o desempenho. Essa forma de administrar a coisa pública tendo como base o desejo de obedecer às melhorias contínuas associada a noção de que as ações do administrador e do político devem ser monitorados constantemente pela sociedade e instâncias superiores tendem a melhorar sensivelmente a falta de accountability nos modelos de gestão pública.
  

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O antídoto para as pequenas maledicências do nosso cotidiano:



Em 2008, conheci Marina. Ela possuía ar encantador, pura sedução, bom caráter e inteligência acima da média, bem como um excelente nível cultural. Todas as vezes que pensava na fibra moral dela, remetia-me, essas qualidades, ao altruísmo. Aspirava fazer o bem. Desejava colocar minhas ideias no papel para provocar a reflexão, aguçar o pensamento e fomentar o senso crítico. Meu galanteio resumia-se a tentar agradá-la. No entanto, nada disso teve efeito benéfico. O jeito sensível demais meu atiçava a raiva dela, porque nem toda a mulher gosta de ser bajulada com tamanha frequência. Começaram os desentendimentos, multiplicam-se as maledicências. Por isso, quero um mundo livre de iniquidades. Minha literatura científica servirá para a disseminação da cultura e do intelectualismo para a proposição de soluções para os dilemas cotidianos. Agradeço a todas as pessoas que visitaram o meu blog. Conseguimos ultrapassar mais de 1000 visitas.


Obrigado, muito obrigado. 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Síntese do livro “A reinvenção social do natural”





                No livro “A Reinvenção social do Natural”, escrito por Luciano Florit, fala-se da crítica da exclusão da natureza do paradigma sociológico clássico. Na atual conjuntura da crise ambiental, a sociologia notou que o conceito de meio ambiente é socialmente construído, porque não há uma distinção clara do que é natureza e cultura. Durante boa parte do livro, é tratado de mostrar como acontece a evolução cultural do conceito de meio ambiente, desde a Grécia Antiga, passando pela Idade Média, Modernidade e Pós-modernidade. O natural, visto como um macrocosmo, tornou-se criação divina e depois, um mecanismo regido por leis físicas passíveis de serem descritas matematicamente e, agora, graças à constante intrusão consciente humana, passa-se para um paradigma pós-moderno, caracterizado pela multiplicação de riscos inerentes à proliferação de inovações técnicas. Na última parte do livro, faz-se uma crítica aos efeitos da agricultura tradicional. A agricultura alternativa se divide em orgânica, biodinâmica, biológica e natural. A agricultura orgânica trata da experiência tradicional, foca mais a biologia e a história natural ao invés do uso de substâncias químicas sintéticas. Objetiva produzir alimentos ao proteger a biodiversidade, utilizando microorganismos para promover a fertilidade do solo. A agricultura biológica segue a mesma linha, mas, também, dá ênfase na mudança de estilo de vida, num ambientalismo político. Outra vertente, a agricultura biodinâmica segue doutrinas metafísicas, crê que a vida é regida pelos astros e forças cosmológicas. O resultado é o foco no crescimento espiritual através do cultivo da cultura agrícola. A última vertente, a agricultura natural, trata do taoísmo, budismo e da agricultura tradicional, onde o cultivo é regido pelas premissas de não contaminar, não interferir e não fazer mal ao natural. Coloca-se, como exemplo de práticas agrícolas alternativas, o caso do Rio Grande do Sul e a Argentina. Enquanto o primeiro caso se notabiliza por uma crítica ao modelo de desenvolvimento, o que desemboca um projeto político, o segundo exporta a maior parte de sua produção para a Europa, restringindo-se aos ditames do mercado internacional e à produção mais “limpa”, sem propor mudanças estruturantes. Essas duas concepções de natureza em meio às mais diversas são, na verdade, amostras de um arcabouço teórico e filosófico que consubstancia toda uma prática agrícola e, posteriormente, as transações comerciais, economia e cultura. Urge repensarmos o que se entende por natural e propor projetos societários de mudança estrutural para o bem do planeta Terra nosso.  

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Síntese sobre o artigo “Globalização e Planejamento do Desenvolvimento Regional: O Caso do Vale do Itajaí”:




Ivo Marcos Theis, no artigo “Globalização e Planejamento do Desenvolvimento Regional: O Caso do Vale do Itajaí”, descreve o planejamento do desenvolvimento no Vale do Itajaí, no Estado de Santa Catarina, através do Fórum de Desenvolvimento Regional do Médio Vale do Itajaí (Fórum Regional), a Região Metropolitana do Médio Vale do Itajaí (Região Metropolitana) e o Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Itajaí (Comitê do Itajaí). Descreve-se o resultado de uma pesquisa de campo. Do ponto de vista dos 46 prefeitos dos municípios que formam a Bacia Hidrográfica do Rio Itajaí, eles falaram sobre a participação no Comitê do Itajaí, Região Metropolitana e o Fórum Regional, as vantagens dessas instâncias e as áreas prioritárias a serem consideradas no contexto do planejamento sustentável do desenvolvimento regional. Foram questionadas, também, as entidades que participam das três instâncias de planejamento do desenvolvimento regional do Médio Vale do Itajaí.

Procurou-se saber sobre objetivos das entidades, participação dos entrevistados nas entidades, principais atividades, as origens dos recursos que financiam tais entidades e benefícios oriundos das ações dessas entidades. Por fim, realizou-se a pesquisa com três representantes da classe trabalhadora e três representantes do empresariado. Para os representantes do capital, destaca-se a importância das três iniciativas de planejamento do desenvolvimento regional e o fato deles participarem dessas iniciativas, bem como a possibilidade de unir classes em prol da execução de um projeto em comum. Os trabalhadores entrevistados não participam das iniciativas de planejamento aqui analisadas, ao menos, não formalmente, acreditam que a classe trabalhadora deveria dar a sua contribuição para o problema do desemprego e o planejamento do desenvolvimento regional. Na concepção deles, até então, o planejamento do território visa funcionar segundo a lógica do capital. A geração de mais recursos, a execução de ações sociais, a integração regional para romper a histórica visão das grandes empresas, o fortalecimento da pequena e média empresa, investimento no turismo e a busca por soluções são as propostas da classe trabalhadora. Fala-se do histórico e dos objetivos do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Itajaí, a Região Metropolitana e o Fórum de Desenvolvimento Regional do Médio Vale do Itajaí. Concluímos que todas as instâncias citadas contribuem para o debate de desenvolvimento do padrão de desenvolvimento regional em curso no Vale do Itajaí. As mais variadas parcelas da população têm interesse em participar nesse debate. Há, também, cada vez maior interesse em integrar essas instâncias. Finalizamos com a última parte da conclusão, a de que o padrão de desenvolvimento regional, dependente da indústria têxtil, está esgotado. Assim, surge a necessidade de se apostar num outro padrão de desenvolvimento regional calcado em outras atividades produtivas, o que asseguraria a acumulação do capital noutros moldes e a melhora da qualidade de vida.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Síntese sobre o artigo “As associações de Municípios e o planejamento regional em Santa Catarina”:




Os autores Maria Teresinha de Resenes Marcon e Valesca Menezes Marques fazem um resgate histórico das Associações de Municípios, apresentando-as como precursoras na implantação de ações voltadas ao planejamento microrregional na gestão e na institucionalização de um pacto territorial que congregue os diversos atores na luta pelo desenvolvimento regional. Fala-se da atuação nos recém-instalados Fóruns de Desenvolvimento Regional, braços resultantes da ação do associativismo municipal na fase de aglutinação das forças produtoras da microrregião, cujo objetivo é a integração. Em resumo, o agrupamento de municípios formadores de microrregiões das Associações de Municípios é uma forma de solucionar problemas das municipalidades. Os autores, conforme fundamentam o raciocínio, apontam que a noção geográfica de região evoca um território, implica um princípio de organização. O homem organiza o espaço conforme as necessidades. Uma região tem os laços existentes entre seus habitantes, sua organização em torno de um centro dotado de certa autonomia e sua integração funcional em uma economia global como características principais. O planejamento regional induzido pelo Estado é incapaz de eliminar a miséria. Novos atores entram em cena. O próprio conceito de desenvolvimento sofre transformações, porque, passa a ser, agora, sustentável. Acrescenta-se, a isso, o conceito de pensar e agir regionalmente. As associações de municípios, organizadas em 21 microrregiões espontâneas, são polarizadas por um centro regional ou município-pólo. O associativismo municipal objetiva fortalecer o município como instituição governamental, conduzindo-o ao exercício de seus três papéis fundamentais: escola política e de governo, agente promotor do desenvolvimento econômico e social, e entidade de prestação de serviços públicos locais. Associações de municípios catarinenses são entidades com personalidade jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, com duração indeterminada e com estatuto próprio, aprovado em Assembléia Geral. Há, na Associação, uma Assembléia Geral (composta por prefeitos, vice-prefeitos e presidentes de Câmaras Municipais da região), uma Diretoria (composta por três prefeitos - um como presidente e dois como vice-presidentes – aos quais cabe desempenhar papel político, sem envolvimento com a parte operacional), o Conselho Fiscal (composta por três membros efetivos e seus respectivos suplentes, eleitos pela Assembléia Geral), a Secretaria Executiva e a Divisão Técnica. Para concluir, descreve-se que a necessidade da Associação de Município tem de aperfeiçoar o desempenho, competência e como agente de poder delegado, intensificando a atuação no planejamento urbano e regional.

Síntese sobre o artigo “Panorama do planejamento regional em Santa Catarina: da centralização à construção da solidariedade regional”:



                Todo o processo de desenvolvimento regional deve ser planejado de antemão. Com Santa Catarina não é diferente. Apresento, nessa síntese do artigo de Claudia Siebert, uma análise sobre os planos feitos para induzir o desenvolvimento catarinense, os pontos fortes e fracos. Temos, em toda a história do planejamento catarinense, a fase dos planos de investimentos, a fase de transição para o planejamento sistêmico e a fase de planejamento sistêmico. Na fase inicial, tinham-se orçamentos paralelos, depois, com o decreto-lei 200/67, inicia-se a transição para o sistêmico e, posteriormente, em 1972, cria-se o sistema de planejamento federal. Em 1987, é consolidado o planejamento sistêmico com a reforma administrativa da estrutura organizacional do Estado em quatro sistemas: Sistema de Governo, Sistema de Planejamento, Sistema de Administração Financeira e Sistema de Administração de Pessoal e Serviços Gerais. A partir de 1995, é criado o sistema Estadual de Estatística e Planejamento, implantando-se a metodologia de elaboração de planos de ação por meio de projetos multisetoriais.  Cada fase corresponde aos planos de governo específicos. Também, surgiram planos regionais que tratam da questão espacial. A conclusão que se segue é que se deve dar continuidade a um projeto único de indução do desenvolvimento regional impulsionado por agências e pela solidariedade regional, ao invés de, a cada nova eleição, elaborar novos procedimentos, projetos e agências, segundo a vontade de interesses pessoais de políticos. O que falta é a continuidade das políticas públicas e do trabalho dos gestores. 

sábado, 24 de janeiro de 2015

Síntese sobre o artigo “Dinâmica demográfica e desenvolvimento industrial em Santa Catarina”:



Santa Catarina evoluiu de uma economia agrícola e de exploração de recursos naturais para um subsistema com forte predominância da indústria. Para efeitos de comparação, calcula-se que, em 1950, havia 1,2 milhões de pessoas no meio rural, de um efetivo de 1,56 milhões. A indústria limitava-se a uma taxa inferior a 20%, entre 1947 e 1953, enquanto que a atividade rural correspondia por quase metade do PIB em 1950. Desenvolve-se a indústria nos anos 60 e 70. A urbanização ocorreu não só pelo deslocamento de habitantes do meu rural para as cidades, mas, também, pela ampliação do perímetro urbano, que passaram a incorporar territórios de subúrbios e até do meio rural contíguo às cidades. Houve desmembramentos dos municípios, implicando no surgimento de grande número de municípios e futuras cidades. Geram-se, a partir disso, muitos empregos. O desenvolvimento, embora distribuído em toda a região catarinense, se comparado com outras unidades da federação, implicou num inquestionável avanço da porção Norte do território catarinense no efetivo demográfico total e urbano do Estado e na composição do produto e do emprego industrial. O eixo industrial diversificado constituído por Jaraguá do Sul e Joinville é caracterizado por segmentos de metal-mecânica e de plástico, coadjuvados por têxteis-vestuários, informática e automação. Outras regiões se especializaram em setores, o que polariza o desenvolvimento regional e local. O que se conclui com a análise dos investimentos é que o norte deverá ampliar sua participação no setor secundário catarinense, sem anular as demais regiões. O setor industrial desempenhará função vital na consolidação da economia do Estado. Saí-se do paradigma antigo. Estados e municípios devem se conscientizar de que a nova onda de desenvolvimento estará embasada na informação, no conhecimento e na inovação.  

Síntese do artigo “Competitividade global para as pequenas empresas e desenvolvimento local”:


                Nelson Casarotto Filho e Luis Henrique Pires, no artigo “Competitividade global para as pequenas empresas e desenvolvimento local” mencionam, na época onde o artigo foi escrito, 2001, o Brasil estava oscilando entre o 40° e 50° lugar no Ranking da Competitividade Global do Fórum Econômico Global. Para aumentar as exportações e absorver mão de obra, aponta-se a importância da pequena e média empresa. Aqui, no Brasil, porém, as empresas são extremamente verticalizadas de modo interno, sem a necessária representatividade e sem a existência de acordos econômicos (com fornecedores, clientes e concorrentes). Na Itália, por exemplo, a competitividade das empresas reside no “ambiente competitivo”. Há grupos de pequenas empresas, sejam elas complementares ou concorrentes, às vezes com relações estratégicas com empresas maiores, mas, nunca isoladas. Utilizam fatores competitivos como imagem, economia de escala, escopo, assistência técnica globalizada, contam com administrações locais, instrumentos associativos, cooperativas, centros de pesquisa, consórcios tecnológicos e/ou comerciais, observatórios e econômicos. “Consórcios”, “cooperativas”, “alianças”, “redes de empresa flexíveis” e “villaggio produttivo” são termos que obrigatoriamente passarão a fazer parte do vocabulário da empresa competitiva. Como é improvável que a pequena empresa possa dominar todas as etapas da cadeia produtiva, surgem as cooperações para compartilhar das funções iniciais e finas do processo. São as funções iniciais (design, aquisições) e finais (exportações, marca e marketing) são compartilhadas entre os associados, num consórcio, fazendo com que as funções citadas agreguem maior valor ao produto.

            Consórcios horizontalizados são empresas que fabricam o mesmo tipo de produto, enquanto que nos verticalizados, a produção dos componentes está distribuída entre os consorciados em cadeia e a montagem final pode estar com empresas consorciadas ou alguma específica que assume a marca do consórcio. O ideal é que o consórcio esteja integrado num Sistema Econômico Local, com vários instrumentos de integração econômica. A competição não é mais entre empresas, mas, entre sistemas produtivos locais.  Foca-se o desenvolvimento da região. O distrito deve ser multissetorial, possuir a personalidade do produto final da região (exemplo: móveis), produzir, também, equipamentos para móveis, produtos químicos para móveis, equipamentos correlatos, tecnologia e design em móveis, turismo vocacionado para móveis, parques temáticos voltados para florestas, etc. Afinal de contas, pouco adianta ter uma empresa competitiva numa área ou região caracterizada pelo desemprego e baixa renda per capita. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Síntese do artigo “reflexões sobre a criação, desenvolvimento e gestão de agências de desenvolvimento regional”:


            Vítor Soares, no artigo “reflexões sobre a criação, desenvolvimento e gestão de agências de desenvolvimento regional”, relata que desde 1992, existe uma estrutura de agrupamentos das agências de desenvolvimento designada por EURADA – Associação Européia de Agências de Desenvolvimento. A associação começou a ser solicitada pela Comissão Européia para desenvolver projetos de cooperação técnica com os países da Europa Central. Objetivavam a criação de modelos de agências de desenvolvimento. O processo Tutorat, nomeado assim pelo então Comissário Europeu para políticas regionais, promove a transferência organizacional baseados nas potencialidades regionais. Esse processo serviu como base para o conceito de IQADE – Implementação e Qualificação de Agências de Desenvolvimento -, o qual foi aplicado em Portugal, no âmbito de um Programa Operacional de Promoção do Potencial de Desenvolvimento Regional (PPDR). Surge, nessas circunstâncias, na União Européia e na América do Norte, as “agências de desenvolvimento”, estruturas que podem tornar um dado território pró-ativo em relação à economia globalizada. É uma plataforma técnico-institucional operativa que identifica problemas de desenvolvimento setorial ou global e promove projetos que tendem a otimizar as soluções em função dos problemas identificados. Há diferentes tipos de agência de desenvolvimento regional:

a) Pela sua origem:
- Agências fundadoras por governos centrais
- Agências existentes dentro de autoridades locais e regionais
- Agências fundadas pelas autoridades locais e regionais
- Agências independentes fundadas por parceria público-privado
 b) Pela sua atividade:
- Agências estratégicas
- Agências operacionais globais
- Agências operacionais setoriais
           

            A Agência de desenvolvimento tem, como tarefas, a observação do cenário econômico, desenvolvimento endógeno, intervir nas condições gerais do desenvolvimento, ações no campo da formação, desenvolvimento exógeno, ação de internacionalização, ações no campo do turismo e promoção do território.  Nas próximas postagens, continuarei a descrever sobre o desenvolvimento sob o enfoque regional. 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Síntese do artigo “O papel da micro e pequena empresa no desenvolvimento regional”:



O autor do artigo, Ignacy Sachs, discute o papel da micro e pequena empresa em Santa Catarina, onde se fomentou um modelo chamado de industrialização difusa ou clusters. Discute-se uma tipologia da micro e pequena empresa. Um micro empresa com três garrafeiros que se unem para recuperar garrafas é diferente do que outra empresa formada por três programadores que desenvolvem novas tecnologias. Como cada empresa tem as suas particularidades, merece estímulos específicos. Por suas características específicas, a empresa pode ou não gerar emprego. A cottage industries são empresas artesanais de alta intensidade que empregam muita mão-de-obra, enquanto a modern small scale, pequenas empresas, onde havia economia de escala através de extrema especialização, sem a geração de emprego. Como exemplo desse último tipo, citaria uma fábrica de um tipo único de agulhas (especialização) que atende um mercado enorme (economia de escala). Há empresas criadoras de emprego e outras que se justificam apenas por sua função dentro do sistema econômico. Precisamos de ambas. Isso é verificável, em termos matemáticos, na equação: Tc = Tp + Te. A taxa de crescimento é igual ao aumento da produtividade do trabalho mais a taxa de aumento do emprego. Crescimento implica em aumento da produtividade, enquanto crescimento extensivo é aquele que se faz através de emprego. O ideal é combinar os dois. Na área do desenvolvimento rural, cita-se, por exemplo, o caso de empregos gerados na agricultura equivaleria a empregos gerados em outras áreas, como indústrias, produção de bens e serviços, tudo induzido pela renda dos camponeses. É a plurifuncionalidade da agricultura familiar. O segundo setor de geração de emprego envolve a busca por ecoeficiência, a conservação do recurso natural, porque a manutenção do patrimônio natural significa menor gasto com reposição necessária e assim, acontece, apenas, a manutenção de mão de obra. A autoconstrução assistida de habitações, também, pode gerar empregos. Para tanto, é preciso do afrouxamento do crédito. Obras públicas e serviços sociais executados por meio de tecnologias intensivas de mão-de-obra completam o quadro de áreas potenciais que merecem maiores atenções. A partir disso, inicia-se um projeto induzido por políticas públicas certas que fazem a mescla da geração do emprego com crescimento econômico para o usufruto da sociedade.        

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Síntese do artigo “Cooperação e co-produção público-privado: o papel do terceiro setor”:



No artigo “Cooperação e co-produção público-privado: o papel do terceiro setor” de José Francisco Salm, inicialmente, descreve que, entre os anos de 1994 e 1999, há uma diminuição do número de empregos para pessoas com baixa escolaridade, o que impede a participação de determinada classe de pessoas na distribuição de riqueza. Isso implica em concentração de renda, afinal, nosso sistema funciona com base no egoísmo. Novas respostas devem ser pensadas.

Novas parcerias devem ser buscadas com o “terceiro setor”, a associação do público-privado. Essa última busca o bem comum, a distribuição dos bens que levam ao bem-estar de uma coletividade. Se o tamanho do Estado diminuir, isto é, se ele não for o único que lida com a distribuição dos bens que proporcionam bem- estar para uma população, os impostos diminuirão e outras instituições vão executar essa tarefa de administrar o que é público. Entra o “terceiro setor”, a co-produção do bem público, a sociedade que busca melhorias fora da esfera do mercado e do Estado. Falamos de organizações do tipo beneficente, filantrópica, assistencial, ONGs, fundações, institutos e doadores de recursos dedicados a investimento social. Na Europa, esse conceito de “terceiro setor” é chamado de “economia social” ou “economia solidária”. Por esse último termo, entende-se, como exemplo, uma associação funcional, cooperativa de trabalho, renda ou crédito. A economia social coloca a prestação de serviços acima do lucro, um complemento da ação do Estado. Primeiro setor significa Estado, segundo setor significa mercado e terceiro setor, numa conceituação mais clara, significa quem atua a iniciativa privada com finalidade pública. Se analisássemos o terceiro setor em termos de aplicação de recursos, veríamos que ele é a oitava economia do mundo. Essas iniciativas privadas com feições públicas executar vários projetos para crianças, adolescentes, adultos, famílias, terceira idade, portadores de HIV, dependentes químicos, etc. A fundação Boticário, Instituto Senna, a Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho são exemplos dessas instituições. A lógica econômica é suplementar. Mais vale o altruísmo. Humanizemos o mundo através do repensar a economia e a cultura.  

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Síntese do artigo “Reflexões sobre processos inovadores de desenvolvimento regional”


            Essa série de postagens tem como objetivo sintetizar os artigos existentes no livro “Desenvolvimento Regional em Santa Catarina” para possibilitar olhares diversificados sobre a questão do desenvolvimento, bem como formas de promovê-lo. Nosso primeiro artigo a ser sintetizado é o “Reflexões sobre processos inovadores de desenvolvimento regional” de autoria de Roberto Spolidoro. Para começo de conversa, a era da sociedade industrial está sendo substituída pela sociedade do conhecimento. Portanto, deve-se usufruir das oportunidades advindas da transição de paradigmas. Forma-se uma rede que conjuga a universidade, a indústria, o governo e outros segmentos da sociedade organizada.
            A região, ao executar o salto paradigmático, a ruptura com a tradição, deve proceder para efetuar um desenvolvimento democrático, justo, sustentável, ético e promotor da identidade cultural, integrada à economia globalizada e à sociedade do conhecimento. Para tanto, recorre-se ao Fórum Regional do Futuro, entidade pública, não-estatal, formada pela parceria entre o governo, instituições de pesquisa, empresas e sindicatos. Recorre-se, também, ao Projeto Regional para o Futuro, estrutura descentralizada capaz de promover iniciativas estruturantes. Tais ações são estratégias que aproveitam o potencial de habitats de inovação. Cita-se, por exemplo, a incubadora de base estratégica, ambiente que favorece a criação e desenvolvimento de empresas e de produtos. Os empreendimentos, nessas circunstâncias, dependendo da fase em que estão, passam pela incubadora fase 1, fase 2, Centro Empresarial de Inovação, Incubadora mista, incubadora de negócios, parques tecnológicos, pólos tecnológicos de modernização tecnológica, pólos de turismo, agropólos, pólos de desenvolvimento integrado e tecnópole. Para isso, organiza-se o território através de corredores urbanos de infra-estrutura, corredores interurbanos de infra-estrutura e comunidade de municípios. Para concluir o artigo, cita-se que o autor dele, fundamentou seu artigo numa teoria de mudança paradigmática oriunda de uma rede informal de instituições como o Instituto Euvaldo Lodi (Sistema Confederação Nacional de Indústria), o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE – instituições de pesquisa, ensino, órgãos governamentais e associações. Todas as instituições citadas têm interesse em desvincular a região catarinense do paradigma exaurido e integrá-la à era do conhecimento globalizado.              



Resenha do livro “Modelo Catarinense de Desenvolvimento – Uma ideia em mutação?” – parte 2:


                O modelo catarinense de desenvolvimento está esgotado. Para superar o esgotamento, a perspectiva neomodernizadora enfatiza a necessidade de usar a tecnologia para propiciar um crescimento qualitativo, investir no setor de serviços e combinar economias industriais numa rede horizontal de cooperação. A perspectiva da ruptura democrática-participativa, ao contrário, colocava ênfase de novos procedimentos democráticos, tentar reverter as tendências perniciosas do desenvolvimento através das organizações da sociedade civil. O plano diretor, por exemplo, o ordenamento urbano e o planejamento das cidades precisam ser feitos tendo a população enquanto base, porque ela é que irá sofrer os impactos. A neomodernização pode proporcionar orientação para fazer alavancar o desenvolvimento tecnológico para reduzir os impactos ambientais e as organizações da sociedade civil podem auxiliar no combate contra a praga da corrupção e das práticas do clientelismo. A redução dos impactos ambientais, a efetivação do exercício democrático, a melhoria da qualidade de vida e a busca por justiça social são os meios para se efetivar um novo modelo de desenvolvimento sustentável, o desenvolvimento tomado numa perspectiva global, não somente local. Acalentar a esperança é condição essencial para esperar um amanhã melhor.



Lenzi, Cristiano Luis. O “modelo catarinense” de desenvolvimento: uma idéia em mutação? Blumenau: Ed. da FURB, 2000.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Resenha do livro “Modelo Catarinense de Desenvolvimento – Uma ideia em mutação?” – parte 1:



                O livro, de autoria de Cristiano Luis Lenzi, da EDIFURB, relata que a crise ecológica não foi somente ocasionada pelo crescimento populacional em países pobres, o que acabou ocasionando a proliferação da miséria e da degradação dos ecossistemas, mas, também, pelo consumo excessivo dos recursos planetários por parte dos países industrializados. Assim, em parte específica do livro, foi relatado que, para superar o atraso da América Latina, é necessário passar da estrutura econômica agrícola para uma estrutura industrial. Isso, na doutrina do Nacional-desenvolvimentismo, que via no Estado empreendedor e no empresariado, os agentes econômicos responsáveis por essa transformação. O que barrava esse avanço são os limites endógenos do Estado-Nação. Por sua vez, na doutrina da Escola da Dependência, o atraso da América Latina era ocasionado por limites exógenos do Estado-Nação, porque o centro e a periferia do mundo capitalista se mantinham em relações de dependência e exploração. Um autor citado na fundamentação teórica, Ceag, relata que o processo de subsatelização, em 1850, levou Santa Catarina a se tornar um exportador de recursos para grandes centros urbanos, numa economia cafeeira. Já Cano via que São Paulo, o principal centro econômico, era auto-suficiente em produção agropecuária e Santa Catarina, por esse motivo, exportava para o Nordeste e Guanabara, até 1920. Graças à dinâmica econômica provocada pelas importações e exportações, Santa Catarina se tornou uma economia dependente, cidade de porte médio, especializada em ramos diferentes.  Hering, ao contrário, via nos fatores endógenos, o motivo da industrialização, ou seja, o crescimento industrial se deve à ação do empresariado empreendedor. Muitos autores querem acreditar em um modelo de desenvolvimento catarinense, o que não é possível, porque um modelo de desenvolvimento só se torna legítimo quando passível de reproduzi-lo em outras localidades, sem impactos adversos. No caso catarinense, por exemplo, o índice de Gini, o dado que quantifica a desigualdade socioeconômica, esteve próximo de 1, era 0,57, em 1986, o que caracterizava a região como muito desigual. Diante dessas circunstâncias, o que fazer?


Lenzi, Cristiano Luis. O “modelo catarinense” de desenvolvimento: uma idéia em mutação? Blumenau: Ed. da FURB, 2000.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Galo Verde:



Falarei, hoje, sobre o projeto “Galo Verde” da IECLB – Igreja de Confissão Luterana do Brasil. Toda a atividade humana produz alguma espécie de impacto ambiental. O consumo de água para lavar as mãos antes da refeição, usar energia elétrica, puxar a descarga depois de uma ida ao banheiro são exemplos. O Pastor Clóvis Horst Lindner da empresa Mythos Comunicação, o professor Nélcio Lindner do SENAI, os professores José Sommer e Sandoval Pinheiro da Escola Barão do Rio Branco de Blumenau, a ACAPRENA - Associação Catarinense de Preservação da Natureza – e diversos outros setores da sociedade estão juntos essa empreitada em prol do meio ambiente.
Para começo de conversa, impacto é toda a alteração nas características físicas, químicas ou biológicas num ambiente e que podem trazer benefícios ou malefícios. Fala-se em impactos negativos ou positivos. Os recursos naturais são utilizados no processo produtivo industrial, o que significa dizer que na medida em que a economia se expande, o capital ecológico vai diminuindo. O crescimento populacional, por isso mesmo, impacta os ecossistemas e, além disso, os padrões de consumo dos países mais ricos não podem ser imitados pelos países periféricos, porque é consumido muito lá, muito mais do que nos países em desenvolvimento. O corolário que se segue é o fenômeno do decrescimento da qualidade de vida, pobreza, ignorância e a subalternização dos países periféricos em relação aos países centrais. Para reverter esse panorama sombrio, o Galo Verde utiliza um método prático de, através de ações pontuais, reduzir o consumo de água e energia, fazer a gestão dos resíduos, reaproveitar o resíduo orgânico na composteira, reciclar e divulgar a experiência. A igreja que conseguir seguir determinados critérios como a redução da geração de resíduos, economia de água, energia e a implantação de tecnologias renováveis (lâmpadas que gastam menos são exemplo) recebe um certificado.   A melhoria é contínua e segue o mesmo princípio da norma ISSO 14.001, a certificação de que o processo produtivo é sustentável, menos poluente. Deus criou o mundo e temos a responsabilidade de cuidar dele.
   Veja o site deles:



sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Anatomia de um sonho:



Nesse texto, teço algumas recomendações para orientar o exercício de reflexão de quem acabou de ler os capítulos da saga “Onírico” postados no blog. A institucionalização de um serviço implica na criação de um monopólio, o que acaba gerando escassez. Uma política social criada para aliviar a miséria pode sofrer influências negativas da excessiva burocratização e ineficiência estatal, por exemplo. Tecnocratas analisam uma determinada população, atribuindo-lhe critérios para quantificar a pobreza. Daí, cria-se demanda institucionalizada por saúde, habitação, saneamento, escola e cultura. Conforme já citado, cada instituição possui um limite. Ultrapassado esse limite, as pessoas ficam incapazes de atender suas próprias demandas, viram joguetes nas mãos dos tecnocratas. A autonomia e o poder pessoal são mutilados de forma irreversível. Clubes de leitura fomentam muito melhor o interesse pela cultura do que um currículo escolar feito sob encomenda para mobilizar o interesse do alunado em relação à literatura. Deixe de cada um faça o que quiser por meio do livre compartilhamento de serviços, produtos e conhecimentos. A busca por um cada vez maior consumo de bens materiais deve ser substituído pela autoprodução, valores de uso, economia adequada à escala humana e a descentralização. O produção de cultura, seja ela música, brincadeiras, jogos ou artes e a filosofia podem se tornar o norte da nossa civilização, como acontecia na Grécia Antiga. A aprendizagem duraria toda a vida. A redução da jornada de trabalho e a criação de instituições que possibilitam o livre intercâmbio de serviços feitos pela própria população num regime de autogestão são condições necessárias para substituir a busca pelo avanço técnico pela liberdade de criar por conta própria, característica da pós-modernidade. Isso só se consegue com uma inversão institucional. Por muitas vezes, tentei fugir da ordem orquestrada pela imaginação institucionalizada. Aprender, pesquisar e escrever livros por conta própria, ter iniciativa ao invés de esperar por serviços e produtos vindos de alguma outra instância. Consegui relativo sucesso quando consegui amadurecer minhas competências não-cognitivas como a livre iniciativa, liberdade, persistência e criatividade. E é isso que falta para as escolas do nosso Brasil.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Capitulo 5 - parte 1: Coragem


- Conforme eu vinha comentando, eu, ainda, quero me tornar escritor. A ação humana desemboca em efeitos imprevisíveis. A vida não é um fluxograma ou um esquema linear onde diploma é garantia de emprego. Solicitude, boa educação e paparicos não são, do mesmo modo, passaporte seguro para o romance. Leva muito tempo até que eu conseguir me tornar um bom escritor. A maioria das pessoas menospreza a minha filosofia, a exemplo do que aconteceu com Lúcia, porque em princípio, a filosofia para nada serve. A reflexão, a literatura e o pensamento crítico não são como um cálculo matemático que se pode utilizar para se fazer um programa de computador ou uma troca de idéias a ser feita com um amigo combinando um encontro, como sempre fazia Túlio. Noutras palavras, não é um conhecimento aplicado ao mundo concreto. O ganho obtido com o estudo sistemático da idéia, da ética e do que é justo não é imediato. Leva anos até que a pessoa refletir sobre suas próprias práticas, numa análise metafísica, o porquê do mundo estar impregnado com determinadas visões de mundo.

- Bem, Felipe, o que significa que filosofia não dá dinheiro, não é?

- Exatamente. Eu filosofo para ampliar meus horizontes intelectuais, abrir as portas da percepção, ir além do óbvio ululante. É necessário saber do que se gosta para, daí então, ser feliz. Enquanto Túlio é pessoa mais prática, eu sou mais acadêmico, mais intelectual. O mundo precisa de pessoas como eu e Túlio para funcionar. Nem todos podem ser donos de multinacionais, mas, todos, sem exceção podem ser ótimos profissionais e bons cidadãos. Sonho com o dia em que terei minhas ideias valorizadas e lutarei para buscar a minha satisfação pessoal, ao mesmo tempo em que torço pela felicidade de Túlio e Lúcia. Porque, se seguirmos a linha do “olho por olho”, o mundo acabará cego. A escola ideal não é aquela que premia os melhores estudantes com elogios ou notas. Isso acaba formando hierarquias. Cada pessoa tem diferentes habilidades, sonhos e aptidões diferentes. A comparação apenas traz decepções.

- Você tem namorada? Esqueceu a Lúcia?

- Tenho 26 anos e nunca experimentei beijo na boca. Não se pode usar força de vontade para se apaixonar e não é possível seduzir alguém por meio de erudição, boas qualidades ou ótimo caráter. Agarrar o amor quando o mesmo se apresenta e ficar atento às oportunidades que a vida oferece é dificílimo. A borboleta apenas aparece em jardins bem cuidados e foge de toda a tentativa de captura. Não há regras para acontecer o romance.

- Não entendo o que essa sua sapiência toda tem a ver com o fato de você ter me criado nessa história.

- Quero que você, ao despertar desse sonho, consiga encarar o seu pai, pedir-lhe permissão para largar a vida de secretária e seguir com o projeto de ser escritora. Minha vida é análoga a sua: temos que focar no nosso desenvolvimento pessoal. Eu escrevi essa história, “Onírico”, para poder colocar, no papel, o que me angustia. Ter registrado minhas resoluções para essa nova etapa da vida. Não se pode controlar o futuro e as expectativas nunca são concretizados, porque, conforme disse, a vida não é fluxograma. Mas, pode-se crer que sou capaz de me contentar com o pouco de hoje para ter esperanças de que, mesmo com conseqüências imprevisíveis, minha boa ação trará bons frutos para os dias vindouros. Semear o bem não importa para quem e sem se importar com o que vem.


Fim.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Capitulo 4 - parte 2: Pícaro


- Inspirou-me, a moça, a escrever cartas de amor. Disse-lhe que acalentava o sonho de virar escritor famoso. Estava esperançoso de marcar o dia do casório e construir uma vida ao lado dela. Acredito na duração do amor por toda a vida e para além dessa.
- O que ela fez? - Indagou Amanda.
- Riu alto, fez gracejo e zombarias. Disse-me que meu projeto de vida é ridículo, além de me chamar de romântico bobo, chato de galochas, fracassado. Desdenhava, portanto, da cultura letrada e da erudição. O clima era propício a isso, no final das contas. Porque, por ser alvo de piadas devido ao fato de ser correto demais, não conquistava amigos. Não tenho traquejo, desinibição ou “pegada”. Por ser inapto no quesito das habilidades sociais, meus colegas mais espertos viviam me passando a perna. Túlio, rapaz bem falante e popular, possuidor de personalidade magnética e dono de muito carisma, enfim, seduziu Lúcia. O garoto não tinha notas tão boas quanto as minhas, foi aluno relapso, adorava perturbar professores e, no entanto, era um doutor em termos de flerte e dinâmica sexual.
- Trocando em miúdos, esse tal de Túlio viveu toda a adrenalina da juventude rebelde e questionadora, enquanto você foi desprezado por todos... É isso mesmo? Bem, se for assim, o melhor conselho que posso te dar, Felipe, é ignorar essa gente.
- Como Túlio organizava festas regada a muita bebida e curtição, acabou por abrir uma danceteria num bairro nobre da cidade. O nome dele ganhou projeção em toda a cidade. A diversão virou um ganha-pão para ele. Por ter Túlio estruturado uma enorme rede de contatos e de amigos, o negócio dele vai muito bem. Eu, também, arranjei um emprego como auxiliar de escritório, mas, ganho 10 vezes menos do que ele.

- Bom, eu sinto muito por você, Felipe... Mas, ainda não sei o porquê você ter me criado.
- Em primeiro lugar, não preciso que alguém sinta pena da minha situação. Auxiliar de escritório é um emprego digno como qualquer outro. Não acho que fracassei na vida. Precisamos ir além de simplificações, rótulos ou estereótipos. Desvencilhar da roupagem institucional. Cada pessoa é uma pessoa. Em segundo lugar, escrevo os capítulos da saga “Oníricos”, em meu blog, onde você é a protagonista, para apresentar a minha versão dos fatos referentes à cultura escolar e desconstruir certas verdades absolutas. A escolarização sufoca vocações naturais ao criar uma dicotomia entre conteúdo escolar e prática profissional. Descobrir o valor de uma incógnita é dar respostas certas aos estímulos corretos e isso é diferente do que ser capaz de traçar um rumo profissional. Ser curioso, dedicado e pesquisar por conta própria vale mais do que ter um bom boletim. E é essa cultura da persistência e esse desejo de aprender por conta própria que a escola não incentiva. Deve-se ir além do ensino institucionalizado, aquelas breves lições pontuais assimiladas na infância e na juventude. Túlio venceu na vida não porque a sorte auxilia a malandragem, mas, sim, porque já possuía habilidades não-cognitivas suficientemente amadurecidas para prosperar. E quando eu falo em habilidades não-cognitivas, eu falo em livre expressão, entusiasmo, criatividade, coragem e persistência.


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Capítulo 5 – parte 1: Pícaro


                Amanda, na última tentativa de se libertar dos traumas, numa consulta ao psicólogo, foi submetida, mais uma vez, à hipnose e adormeceu.

- Quem é você? – Perguntou a moçoila para um rapaz no sonho.
                O cenário do sonho é uma sala de aula vazia. Somente havia o garoto e Amanda, e os dois estavam trajando uniforme escolar.

- Meu nome é Felipe Gruetzmacher e eu criei você.

- Como assim? – Questionou a garota.

-Você, Amanda, é um produto da imaginação minha. É um personagem, a protagonista do livro “Onírico” postado em meu blog “Futuro e Realidade”. Quando a linguagem explica a si mesma, torna-se metalinguagem. Um personagem dentro de um livro que explica a trama de outro livro exemplifica a metalinguagem. A linguagem explica a si mesma, admira-se numa imagem refletida num espelho. Todo o nosso diálogo se passa na minha mente e na do leitor que saboreia o texto.

- Sonho em ser escritora e largar a administração de empresas. Se você, Felipe, é o meu criador e escritor, aquele que metamorfoseou ideia em palavra, deve saber me dar uma dica de como ficar famosa com literatura.

- A literatura de boa qualidade e que sensibiliza o leitor é aquela que nos faz refletir sobre as condições da nossa existência. Fomenta a perplexidade, induz à reflexão. O livro para nada serve e, ao mesmo tempo, para tudo serve.

- Se é assim, você me criou para manifestar seus sentimentos e idéias em relação a alguma coisa. Pergunto: Como você se sente? Tem namorada? É feliz? A análise acerca da sua alma pode responder as questões levantadas por esses capítulos, afinal, tudo diz respeito ao o que se passa no âmago do espírito seu.

- Vejo que você compreende bem. Laércio é representação minha, uma espécie de personificação de um segundo “eu” transposto nas letras. Nunca entendi como funciona o flerte ou o jogo da sedução. Sempre fui demasiadamente correto, tentava bajular as moças com a minha solicitude, boa educação, cultura e cavalheirismo. Até que fui apelidado de “nerd”, uma espécie de caxias, sujeito inepto na arte do amor, excessivamente introvertido. Sem lograr êxito no entrosamento com o restante das pessoas, jamais fui da turma popular, extrovertida e “descolada”. Sou o chato politicamente correto. Fui alvo de cruéis chacotas. Minhas notas razoáveis eram o pretexto perfeito para que os malandrinhos tecessem críticas ao meu estilo de vida.

- Sinto muito por você... Até me lembro de uma citação do Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.” 


  - Aprecio muito essa citação do saudoso autor. No entanto, sei que rancor corrói a alma. Não vale a pena ficar com o coração dolorido por traquinagem de adolescente. Passou. Passou e não volta mais. No passado, conheci jovem formosa chamada Lúcia. Encantei-me com a formosura da moça em questão. Aconteceu algo de inesperado, então.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Capítulo 4 – parte 2: Nossos pecados


                Durante a semana seguinte, Ângelo, patrão da nossa protagonista, cessou com o assédio. Tratava-a de maneira educada, mas, fria e impessoal.

- Preenchesse o relatório mensal? – Questionou o mulherengo.

- Não. Farei isso depois do almoço.
                A mensagem dele é clara: menos é mais. Quando menos Ângelo procurá-la, mais seduzida ela será. Quando ninguém incomodava, a moça visualizava o perfil do amado nas redes sociais. Ele havia postado uma foto com uma loira espetacular. O sorriso que ostentava na face indicava que a fila anda. Lógico que isso é um artifício para a secretária correr atrás dele. Depois do expediente, a moça foi jantar com Laércio para discutir os progressos conseguidos durante a terapia.

- O sonho que tive na terapia não conseguiu reforças minha estima por mim mesmo, porque não consegui encarar o desafio de confrontar com meu pai. Mesmo assim, estou esperançosa quanto a um recomeço.

- Já tem alguma ideia para começar a escrever livros? Acalenta, com entusiasmo, o sonho de virar escritora?

- Não sei se é isso que quero. Estou confusa.

 - Sabe de uma coisa, minha querida Amanda? A criminalidade disparou desde que a jornada de trabalho foi reduzida. As pessoas, simplesmente, não sabem o que fazer da vida. A indústria cultural banaliza a cultura, massificando-a, vulgarizando-a e fazendo com que as pessoas consumam doses maciças de entretenimento pobre. A reflexão proporcionada pela perplexidade diante o mundo fomentada pela filosofia é substituída por conformismo e alienação. O panorama é sombrio. Nunca que os empresários lucraram tanto graças à dominação conseguida pela força ideológica do consenso e da hegemonia de uma cultura pobre. Nós, escritores e filósofos, podemos não conseguir ganhar rios de dinheiro, porque nosso conhecimento implica em transformação social, não é um conhecimento instrumentalizado que fomenta a ampliação da margem de lucro... Mas, somos úteis na medida em que, juntos, com nossos esforços, fazemos desembocar um arrojado projeto societário de emancipação do ser humano do jugo da exploração e da ignorância. E isso, apesar de não dar dinheiro, é mais importante do que ler um livro recheado de clichês e de qualidade duvidosa, coisas da indústria cultural.

- Eu sei de tudo isso, Laércio. Quero saber como vamos fazer a nossa parte em prol de um mundo onde o tempo livre seja aproveitado para a execução de atividades libertadoras, ontológicas, superiores e que induzem a reflexão e o pensamento crítico.

- A resposta está dentro de você... Nos seus sonhos.



sábado, 10 de janeiro de 2015

Que significa diversão? - parte 3


Poderá o trabalho das indústrias oferecer prazer e contentamento? Isso é o foco dessa nossa postagem de hoje. Marx cita habitualmente a arte e a ciência como paradigmas de auto-realização, o que não ajuda muito. O trabalho, a remuneração, a promoção, o reconhecimento verbal e as condições de trabalho podem ser apontados como as principais causas da satisfação no trabalho. Os atributos que transformam o trabalho em gratificação são: a oportunidade que tem a pessoa de utilizar suas habilidades e capacidades; a oportunidade de aprender; criatividade; dificuldade; quantidade de trabalho; responsabilidade; pressão não-arbitrária pela melhoria do desempenho; controle dos métodos de trabalho e do ritmo de trabalho (autonomia); o enriquecimento da função (que envolve responsabilidade e controle crescentes); e complexidade.
Sentir satisfação no trabalho consiste no crescimento enquanto ser humano, aumentar o mérito e a competência. A monotonia pode ser aliviada mediante o aumento da variedade das atividades, bem como a rotação de funções em grupos semi-autônomos. Adequar um funcionário muito qualificado à função adequada, ao invés de colocá-lo num cargo cujas tarefas são mais simples, também, é uma forma de valorizar o trabalho. Política educacional que identifica aptidões e a possibilidade da sociedade demandar, ao menos, uma capacidade susceptível de ser desenvolvida. Poder optar por uma atividade atraente e receber um feed-back de outras pessoas como clientes e companheiros são poderosos incentivos para conseguir realização. No entanto, como a inovação técnica não pode ser conjugada com qualidade da produção artesanal, a saída para aproveitar corretamente o potencial criativo é desenvolver capacidades adaptáveis dirigidas para uma variedade de tarefas concretas. Mesmo a política pode ser uma forma de auto-realização quando se decide em nível local, numa democracia econômica e no âmbito das organizações. Marx dizia que a auto-realização é integrada à comunidade quando envolve a produção para outros. Realização, assim, acontece no coletivo de trabalho, e não na comunidade de produtores-consumidores. A divisão de trabalho simplificou as tarefas, tornando-as repetitivas e monótonas.
Para atingir a satisfação nesses termos, considermos as seguintes preposições: avanço na democracia econômica requer um compromisso entre os valores da auto-realização participatória e a eficiência. Deve ser alcançado um compromisso entre auto-realização no trabalho e a eficiência, bem como, de modo geral, um compromisso deve ser alcançado entre dois valores quaisquer a promover. Portanto, a democracia direta é trabalhosa, mas, gratificante, contanto que a exigência de eficiência seja respeitada. Trabalhadores, numa democracia econômica, podem discutir racionalmente e prestar informações aos gerentes. Os gerentes podem alcançar a auto-realização individualmente, desenvolvendo e ampliando suas capacidades administrativas. A auto-realização dos trabalhadores, tal como a dos músicos numa orquestra, seria genuinamente conjunta.

Elster, Jon; Auto-realização no trabalho e na política: a concepção marxista da boa vida.1992. Disponível em:  < http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-64451992000100004&script=sci_arttext> Acesso: 18 de dezembro de 2014.




                

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Que significa diversão? - parte 2



Falaremos, agora, sobre as condições que propiciam a auto-realização. Ser capaz de aprender a falar inglês é uma condição para saber como falar inglês e isso, por sua vez, é uma condição para falar inglês. O efetivo exercício da ação de falar inglês consiste na auto-realização. Apreciar um vinho ou escrever uma poesia são atividades que implicam em consumo. Tornar-se provador de vinhos ou realizar correções de poesias são veículos para a auto-realização. Nisso consiste a auto-externalização. Enquanto os prazeres do consumo têm de se desgastar com o tempo, os atrativos da auto-realização aumentam com o tempo à medida que o custo inicial declina e a recompensa pelo sucesso aumenta. A busca por auto-atividade, por ser desafiadora, pode ser penosa, ao menos, no início. Escrever um artigo pode ser difícil, mas, com o tempo, torna-se recompensador. Por isso, para uma criança, aprender a tocar piano pode ser desinteressante. Posterga-se, a partir daí, a recompensa advinda de atividades criativas. Tudo é um questão de educar a sensibilidade. No entanto, ainda assim, a atividade oferece maior satisfação do que o mero consumo das coisas. A ação de alguém, a externalização do “eu” interior da pessoa precisar passar por critérios avaliativos para reforçar a estima do sujeito. Tomemos um exemplo: um trabalho desinteressante pode ser uma forma de auto-externalização que desperta estima e, portanto, auto-estima. Agora, o trabalho pode significar uma atividade penosa, porém, gratificante, um veículo para a auto-realização. Trabalho é toda atividade cujo objetivo é criar valores de uso ou bens intermediários para a produção de valores de uso.