sábado, 21 de fevereiro de 2015

Perdido no caminho?




Deixe-me, por enquanto, descrever a diferença entre expectativa e esperança. O educador Ivan Illich, no livro “Sociedades sem Escolas”, fala que expectativa é a crença na concretização de um resultado pré-estabelecido. Esperança é crer numa bondade inata e que ficaremos, no final das contas, bem, independentemente das circunstâncias. Acalentar a esperança de que aprenderei bastante na escola é diferente do que a expectativa de tirar um 10 no final do semestre, fato esse muito mais difícil de ocorrer do que o primeiro fato apontado. Mesmo um filósofo ateu como Karl Marx, de vez em quando, fala umas verdades: “(...) os homens fazem sua própria história, mas não fazem como querem, não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.” Já Engels filosofava que a vontade nasce da reflexão ou da paixão, porém, estas têm também uma determinação social, porque são estimuladas por forças propulsoras que agem por detrás dos objetivos. Os resultados obtidos são sempre diferentes dos objetivos visados. Agora, partimos para o salmo 37 -5: “entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele o fará”. Transpomos essas filosofias para a realidade do enlutado: a razão nos faz refletir, pensar e idealizar, mas, a realidade trata de ser diferente do que o planejado. A lógica pura, a ideia, o idealismo e a ciência, às vezes, são demasiadamente limitados para imprimir mudanças no mundo, porque este mesmo é regido por forças aparentemente cegas, um determinismo inexorável rumo à morte. Perdemos pai, mãe, irmão, marido, esposa, namorada, namorado, filho, filha e por fim, perdemos a nossa própria vida. E o gênio humano não consegue imprimir, à esse ciclo, uma inteligibilidade, uma compreensividade. Tudo é confuso. Aí, vem o amor de Cristo, aquele amor que nada cobra, porque somos imperfeitos, nada temos a oferecer em troca da salvação. Esse amor, sentimento divino, algo que transcende a lógica, o imediatismo, o que é aparente e concreto, é diferente de um cálculo algébrico. Sintetizando: na matemática, por exemplo, obtemos um resultado pronto, quase uma expectativa, enquanto que o amor de Deus nos salva, mesmo não oferecendo nada em troca. Isso, também, é a diferença entre esperança e expectativa, entre sentimento e lógica, religião e ciência. Deus fará os milagres dele, independentemente da nossa vontade, assim como a chuva cai para os fortes e os fracos, bem como a morte aflige o rico e o pobre. Numa sociedade capitalista, regida pelo poder da mercadoria, onde pessoas trabalham em troca do salário, a ênfase recai sobre a expectativa de maior geração de lucro e a produtividade aumentada graças à tecnologia. Por analogia, a igreja, o amor transformado numa instituição criada por homens, o fazer o bem institucionalizado, mesmo sendo judicialmente uma empresa, presta um serviço que foge da possibilidade de atribuir um dado quantificável. Não se pode medir, em termos de rentabilidade e de ganho monetário, o bem feito por um pastor que apresentou o evangelho a um criminoso, consolou uma viúva ou fortaleceu a fé de uma criança faminta. Nesse ponto, a teologia vira teleologia, a análise sistemática dos fins e dos objetivos da humanidade, das coisas e da natureza. Amar é verbo, é agir segundo um fim determinado, é prática segundo objetivos definidos, independentemente das coisas do porvir, porque, afinal, Deus, em longo prazo, encaixará tudo, mesmo que esse bem chegue somente no dia do juízo. Lembre-se: o luto tem fim. A morte de um parente tem fim, um fim que é o começo de uma nova vida daqueles que ficaram, agora, sem a pessoa falecida.

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