sábado, 20 de dezembro de 2014

Acalentar a esperança:


Na série de postagens anteriores, vimos que importa construir outros modos de produção da vida, fugindo da possibilidade de institucionalizar a produção, porque, se for assim, a mesma irá escassear. Agora, falaremos de transformar o trabalho numa práxis. Noutros termos, descrevo como é possível desmercantilizar o processo econômico, a eliminação do lucro enquanto categoria central. Não significa uma desmonetarização ou o fim do mercado, mas, sim, implica numa nova forma de socialismo, a economia solidária e seu papel na educação. Empreendimentos autônomos em relação ao Estado e ao capital continuarão a atuar dentro de da ordem do mercado, porém, colocará a necessidade humana de usufruir da vida acima da voracidade do capital. A propriedade dos meios de produção é coletiva, dela participam todos que trabalham. Os próprios trabalhadores decidem dividir a receita entre investimentos, entre gastos de consumo dos trabalhadores e como esta última parte deve ser repartida entre os trabalhadores. Moacir Gadotti, autor do livro “economia solidária como práxis pedagógica”, descreve que a economia solidária é interconectar valores econômicos, práticas e instituições que existem em todo o mundo. Engloba o consumo responsável, trabalho, investimentos, cooperativas de trabalhadores, consumidores, produtores, credores, empreendimentos solidários, sindicatos progressistas, empreendimentos comunitários, microcrédito e cuidado com o trabalho não pago. Isso desemboca numa rede de solidariedade, com uma visão compartilhada, solidariedade com a troca de valores, solidariedade com os menos abastados. Estrutura-se uma economia que se alimenta através da inclusão, distribuição de renda radicalização da democracia política e o fortalecimento da democracia substantiva. A educação para a autogestão no empreendimento solidário não fica restrito ao setor administrativo, mas, atinge a totalidade dos cooperados, num amplo trabalho de equipe. O ideal é aprender na prática, através do exemplo, educar para a cooperação e autogestão. Difere do velho e surrado capitalismo de Estado, ou melhor, socialismo soviético, onde o Estado, dominando os meios de produção, oprima o povo. Abre-se a porta da percepção ao diferente, cria-se uma cultura de tolerância, de sensibilidade, solidariedade e alteridade. A formação deve estar articulada com a concretude da experiência sensível. As lições aprendidas na escola da vida pavimentam a construção de uma cultura das redes autogestionárias. A Declaração de Hamburgo (1997), resultante da V Conferência Internacional de Educação de Adultos (Confintea) da Unesco, indica um bom exemplo de como construir uma educação mais práxica. A sistematização do conhecimento deve abarcar questões transversais como o gênero, o meio ambiente, os direitos humanos, a questão étnica e racial, a formação para a paz e a sustentabilidade. Temas que refletem bem os males do nosso cotidiano. Politizar as massas, despertar o interesse delas por esses assuntos envolve a universalização da educação e do trabalho auto-emancipado, porque apenas quando as massas “sentirem”, passarem por uma experiência sensível, reconhecerem-se como sujeitos da história, aprender na práxis, é que irão interiorizar o conhecimento. A secretaria nacional de economia solidária, em outubro de 2005, realizou uma oficina nacional referente à formação em economia solidária, direito de todos os trabalhadores em empreendimentos solidários. Da ocasião, resultou o SENAES/MET, documento em que estão apresentadas princípios e diretrizes da formação que abarca a economia solidária, além dos conteúdos a serem estudados e procedimentos metodológicos. Há, como temática, a história e as perspectivas do trabalho emancipatório e sua constituição, o marco jurídico, a participação cidadã, as relações intersubjetivas, o processo de incubação e a autogestão. Gadotti, no livro já citado, falaria, também, no desenvolvimento sustentável e na sustentabilidade. A formação deve, também, abarcar uma integralidade, o saber prático do sujeito, indo além de simples “treinamento”. Ela implica em assimilar um conhecimento específico e um geral, no que diz respeito a entender, respectivamente, a cada empreendimento solidário em particular e dentro de um contexto mais amplo, numa perspectiva de cooperação comunitária. Forma-se em locais de trabalho para atender às necessidades das redes e cadeias produtivas. Deve-se articular a formação com contextualização, emancipação e engajamento, respeitando a diversidade de gênero, etnia, raça e geração e promoção dos direitos humanos. As metodologias devem promover o diálogo com a realidade e a linguagens dos grupos produtivos, indo de encontro com as necessidades das pessoas e dos grupos.


Gadotti, Moacir. Economia solidária como práxis pedagógica. São Paulo: Editora e Livraria Instituto Paulo Freire, 2009.

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