Na
série de postagens anteriores, vimos que importa construir outros modos de produção
da vida, fugindo da possibilidade de institucionalizar a produção, porque, se
for assim, a mesma irá escassear. Agora, falaremos de transformar o trabalho
numa práxis. Noutros termos, descrevo como é possível desmercantilizar o
processo econômico, a eliminação do lucro enquanto categoria central. Não
significa uma desmonetarização ou o fim do mercado, mas, sim, implica numa nova
forma de socialismo, a economia solidária e seu papel na educação.
Empreendimentos autônomos em relação ao Estado e ao capital continuarão a atuar
dentro de da ordem do mercado, porém, colocará a necessidade humana de usufruir
da vida acima da voracidade do capital. A propriedade dos meios de produção é
coletiva, dela participam todos que trabalham. Os próprios trabalhadores
decidem dividir a receita entre investimentos, entre gastos de consumo dos
trabalhadores e como esta última parte deve ser repartida entre os
trabalhadores. Moacir Gadotti, autor do livro “economia solidária como práxis
pedagógica”, descreve que a economia solidária é interconectar valores
econômicos, práticas e instituições que existem em todo o mundo. Engloba o
consumo responsável, trabalho, investimentos, cooperativas de trabalhadores,
consumidores, produtores, credores, empreendimentos solidários, sindicatos
progressistas, empreendimentos comunitários, microcrédito e cuidado com o
trabalho não pago. Isso desemboca numa rede de solidariedade, com uma visão compartilhada,
solidariedade com a troca de valores, solidariedade com os menos abastados.
Estrutura-se uma economia que se alimenta através da inclusão, distribuição de
renda radicalização da democracia política e o fortalecimento da democracia
substantiva. A educação para a autogestão no empreendimento solidário não fica
restrito ao setor administrativo, mas, atinge a totalidade dos cooperados, num
amplo trabalho de equipe. O ideal é aprender na prática, através do exemplo,
educar para a cooperação e autogestão. Difere do velho e surrado capitalismo de
Estado, ou melhor, socialismo soviético, onde o Estado, dominando os meios de
produção, oprima o povo. Abre-se a porta da percepção ao diferente, cria-se uma
cultura de tolerância, de sensibilidade, solidariedade e alteridade. A formação
deve estar articulada com a concretude da experiência sensível. As lições
aprendidas na escola da vida pavimentam a construção de uma cultura das redes
autogestionárias. A Declaração de Hamburgo (1997), resultante da V Conferência
Internacional de Educação de Adultos (Confintea) da Unesco, indica um bom
exemplo de como construir uma educação mais práxica. A sistematização do
conhecimento deve abarcar questões transversais como o gênero, o meio ambiente,
os direitos humanos, a questão étnica e racial, a formação para a paz e a
sustentabilidade. Temas que refletem bem os males do nosso cotidiano. Politizar
as massas, despertar o interesse delas por esses assuntos envolve a
universalização da educação e do trabalho auto-emancipado, porque apenas quando
as massas “sentirem”, passarem por uma experiência sensível, reconhecerem-se
como sujeitos da história, aprender na práxis, é que irão interiorizar o
conhecimento. A secretaria nacional de economia solidária, em outubro de 2005,
realizou uma oficina nacional referente à formação em economia solidária,
direito de todos os trabalhadores em empreendimentos solidários. Da ocasião,
resultou o SENAES/MET, documento em que estão apresentadas princípios e
diretrizes da formação que abarca a economia solidária, além dos conteúdos a
serem estudados e procedimentos metodológicos. Há, como temática, a história e
as perspectivas do trabalho emancipatório e sua constituição, o marco jurídico,
a participação cidadã, as relações intersubjetivas, o processo de incubação e a
autogestão. Gadotti, no livro já citado, falaria, também, no desenvolvimento
sustentável e na sustentabilidade. A formação deve, também, abarcar uma
integralidade, o saber prático do sujeito, indo além de simples “treinamento”.
Ela implica em assimilar um conhecimento específico e um geral, no que diz
respeito a entender, respectivamente, a cada empreendimento solidário em
particular e dentro de um contexto mais amplo, numa perspectiva de cooperação
comunitária. Forma-se em locais de trabalho para atender às necessidades das
redes e cadeias produtivas. Deve-se articular a formação com contextualização,
emancipação e engajamento, respeitando a diversidade de gênero, etnia, raça e
geração e promoção dos direitos humanos. As metodologias devem promover o
diálogo com a realidade e a linguagens dos grupos produtivos, indo de encontro
com as necessidades das pessoas e dos grupos.
Gadotti,
Moacir. Economia solidária como práxis
pedagógica. São Paulo: Editora e Livraria Instituto Paulo Freire, 2009.
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