sábado, 20 de dezembro de 2014

Capítulo 1 - parte 2: Mediocridade


                - Por que você não se sente pronta para mudar... Mudar de vida?
                - Tenho medo de sofrer...
                - Ora, crescer é sofrer... Crescer dói.
                - Eu bem sei. Ter consciência implica em pensar... Dor, amor, infelicidade e prazer são fantasmagorias, coisas abstratas, coisas inexistentes no concreto e, no entanto, perturbam a nossa alma. Sofro com o despotismo do meu pai, a monotonia do meu trabalho e o tédio proporcionado pela liberdade, produto das horas de ócio. Sofro da dor ancestral de possuir uma vida sem propósito, uma existência condenada a fazer nada de relevante.   
                A consulta ao psicólogo terminou em nada. Como num diálogo de surdos, a comunicação não surtia efeito. No dia seguinte, no emprego, aprendeu a manejar um sistema de emissão de documentos que reduzia o trabalho manual. A secretária é um apêndice do maquinismo. A evolução técnica conseguiu, em partes, libertar o homem do trabalho, mas, o tédio ainda persiste. Ao findar o expediente, Ângelo Sampaio, o chefe da repartição pública, comissionado, convidou Amanda para a festa de encerramento da empresa. Cada funcionário tinha o direito de levar um acompanhante. Durante o jantar, a moça estava conversando com o acompanhante dela, Laércio Botelho, um vizinho, ao mesmo tempo em que dava atenção a Ângelo. Ambos os homens possuíam características cujo antagonismo era irreconciliável. Talvez, seja por isso, que eles eram desejados por Amanda. Ângelo é a prova de que a escolarização sufoca aptidões naturais. Aluno relapso, sempre negligenciou a cultura erudita, sempre esteve às voltas com a turma “descolada”, popular, cheia de vitalidade e energia. Faltavam-lhe dotes intelectuais, sobrava-lhe atitude e esperteza. Fazia sucesso onde passava, notadamente, com as garotas, na época do colégio. Conseguiu a vaga de chefe devido a uma indicação de um amigo. Estava solteiro e logo tratou de seduzir a subordinada com olhares e linguagem corporal, enquanto contava piadas animadas para entretê-la. Bom humor é afrodisíaco. Laércio não logrou êxito em competir com Ângelo pelo coração de Amanda. Também, pudera, limitava-se a rir das piadas do concorrente e tentava, sem sucesso, fazer algumas brincadeiras engraçadas. O convidado da secretária é professor de filosofia, intelectual frustrado, ganha pouco, não consegue fazer a filosofia ser compreendida pelas massas incultas, tampouco divulgar seu livro a respeito de uma perspectiva filosófica da literatura. 
                

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