quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Capítulo 2 – parte 2: Fracasso


                No domingo da semana posterior, Laércio foi até a casa de sua amada com um buquê de flores. Foi precipitado. Depois de anos num metafórico castelo de marfim, refletindo sobre filosofia, enriquecendo o intelecto, ainda não aprendeu a ter as qualidades masculinas apreciáveis. É uma intelectualidade emocionalmente vazia, destituída de qualquer substância.  Suplica atenção.
- Nada quero contigo, Laércio. Você não preenche o coração. A solicitude não é requisito para a conquista, se a alma não está pré-disposta à paixão. – Falou Amanda devido à presunção do pretendente em pensar que o amor estava disponível assim... Tão facilmente.
- Você ama outro, não é? Ama aquele tal de Ângelo.
- O amor pelo meu chefe não frutifica. Somente gostosa atração física não acalenta sentimento sincero. Estou perdida... Sem rumo.
- Não precisa justificar o fato de você não conseguir se apaixonar por mim. A razão não entende a alma humana. Nem os sistemas filosóficos tornam a vida inteligível, porque são poucas respostas para muitas perguntas.
- Que eu faço? Percebo que você é tão solitário quanto eu. Um inexperiente na arte do amor. Vivo num trabalho no qual não me identifico, usufruto de muita liberdade, mas, não sei o que fazer nas horas de ócio.
- Eu bem sei. Desde a revolução industrial, uns séculos atrás, o homem sempre ficou submetido a um trabalho degradante. Apertar parafusos numa linha de produção e ter a mais-valia extorquida pelo déspota patronal tornou o homem menos do que uma besta. Agora, nessa conjuntura econômica, para criar novos postos de trabalho, a jornada de trabalho teve que ser reduzida para três horas diárias. Isso bestializou o homem, do mesmo modo. Agora, as pessoas têm tempo suficiente para se dedicar à balbúrdia. Tentei me dedicar às atividades superiores, à reflexão filosófica e ao cultivo do espírito, porém, prego no deserto.
- Sempre gostei de escrever. Queria ser escritora. No entanto, tive que cursar administração por um designo bobo de meu pai. Agora, depois de tantos fracassos, minha alma ficou quebrantada, sem forças, não tenho como prosseguir na conquista dos meus sonhos. Fico assistindo novelas, navegando em redes sociais ou dormindo nas horas vagas. É muito entediante.
- Nós dois combinamos nesse ponto. E se você fizesse terapia? Não uma terapia convencional, mas, um tratamento feito sob supervisão do psicólogo Henrique Polito? Ele é capaz de hipnotizar o paciente, fazendo com o mesmo durma e sonhe com uma situação ameaçadora. Daí, o paciente enfrenta o trauma e obtêm a cura.
                As esperanças de Laércio em se apoderar do coração de Amanda frutificaram. Disse o filósofo que os dois devem lutar para divulgar a literatura, humanizar o mundo através das artes e preparar os homens para as atividades superiores, ou seja, a filosofia.


Um comentário:

  1. você escreve muito bem , e super te aconselho a divulgar mais e mais seus textos . Adoro ler e me encantei aqui ..

    http://imagi-ne-so.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir