domingo, 14 de dezembro de 2014

Viva e deixe viver parte 6:


O foco dessa postagem será a de uma análise jurídica referente ao exemplo de projeto de educação ambiental de preservação do mangue mostrado na postagem anterior. A lei nº 9.795 de 27 de abril de 1999 oferece importante subsídio jurídico nesse caso. No primeiro artigo, define-se a educação ambiental como um processo por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos e competências para a construção de uma sociedade sustentável em todos os aspectos. Em seguida, a educação ambiental é apresentada como essencial à educação nacional, devendo estar articulada em todas as modalidades do processo pedagógico, em caráter formal e não-formal. No entanto, o que mais interessa é o princípio básico da educação ambiental referente a considerar o meio ambiente como uma totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o sócio-econômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade, bem como o enfoque humanista, holísitco, democrático, participativo e a perspectiva da inter, multi e transdisciplinaridade. Tendo essas característicacas, obrigatoriamente, conforme descreve o § 1o do artigo 10, a educação ambiental será desenvolvida como prática integrada, contínua e permanente em todos os níveis e modalidades do ensino formal, sendo que ela não deve ser implantada como disciplina específica no currículo de ensino. Consciente desses fatos, proponho-me a tecer alguns comentários sobre a postagem referente ao projeto dos manguezais. Para incrementar a pesquisa, sugiro que esse ecossistema tivesse sido, durante o período de trabalho, objeto de estudo de conteúdo referente a uma breve introdução à química e física (composição dos poluentes), forças das águas agindo sobre a embarcação de pescadores quando se navega (cálculo matemático envolvendo o resultante das forças agindo num corpo), o trabalho assalariado regido por mecanismos capitalistas responsável por degradar o meio ecológico (sociologia), o papel do Estado em gerir a coisa pública e os bens naturais (filosofia), a dinamização da economia num contexto de globalização e os reflexos disso na cultura local e nos sistemas naturais (geografia e história). Tudo para conciliar o saber prático dos projetos, a interdisciplinaridade, a integralidade da ciência e as múltiplas inteligências.


BRASIL. Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999. Dispõe sobre a educação ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasil, DF, 27 abr. 1999. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/leis/L9795.htm>. Acesso em: 4 dez 2014

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Viva e deixe viver parte 5:



No livro “Pedagogia dos projetos – uma jornada interdisciplinar rumo ao desenvolvimento das Múltiplas Inteligências” foi mostrado, como exemplo, um projeto que começou com alunos da sétima série, tendo a duração de nove meses e, acabando na oitava série. Tal projeto, desenvolvido em 1991 pela Escola Recanto, consistia na pesquisa referente aos efeitos da poluição sobre os manguezais localizados numa das margens do rio Capinaribe de Recife. O projeto foi planificado nas seguintes etapas:

a)Objetivo: definição da importância dos manguezais, a qualificação dos impactos ecológicos e socioeconômicos. Noutros termos, significa refletir a realidade do litoral de Pernambuco.

b)Pesquisa: Todos os dados foram obtidos através de bibliografias, pesquisas de campo e entrevistas com a comunidade de pescadores e especialistas da área.

c)Como e onde foram obtidos os dados bibliográficos: A fundamentação teórica foi conseguida com o Departamento de Engenharia de Pesca, Biologia e Zoologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFRPE); Biologia e Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Companhia Pernambucana do Controle da Poluição Ambiental e Administração de Recursos Hídricos (CPRH); Fundação de Desenvolvimento da Região Metropolitana do Recife (FIDEM).

d)Dados coletados em campo: Os dados foram coletados nos estuários de Maracaípe, num período de 3 dias, Suape, em um dia, Canal de Santa Cruz, em 3 dias, Jaguaribe, em 1 dia, além dos estuários dos Rios Capibaribe e Beberibe. Para facilitar o acesso aos locais desejados, utilizou-se durante a preamar, um barco de fibras de vidro e motor (25 HP) e durante a baixa-mar, canos e catrais, com auxílio dos pescadores.

e)Ocorreu algum tipo de coleta de material: A coleta incluiu a fauna (peixes, crustáceos e moluscos), de importância econômica e a flora (galhos, raízes, folhas, sementes e mudas das quatro espécies de mangue que ocorrem nestes estuários). Foram, também, selecionados 56 de 170 chapas fotográficas batidas para adequar as fotografias ao texto.

f)Conclusões: A vida vegetal do mangue que caracteriza os estuários tropicais e subtropicais produz matéria orgânica que abastece as ricas águas dos estuários. A destruição da cobertura vegetal desse ecossistema implica na destruição da fauna e da flora estuarina, o que provoca a diminuição da produtividade primária desse ecossistema e um desequilíbrio ecológico, podendo levar à morte toda a fauna estuarina.

g)Acontecimentos pós-projetos: Desenvolver um programa de conscientização com escolas e comunidades de pescadores sobre os malefícios causados pela degradação do mangue.

Os relatos foram sendo aprimorados gradativamente, o que propicia o florescer da área linguística. A área da lógico-matemática foi estimulada quando foram encadeadas sequências de textos, fotos, mapas, desenhos e dados. A utilização de mapas em que se posicionava a região de cada um dos estuários mencionados foi o modo como a inteligência espacial foi utilizada. O desenho feito com o intuito de representar a poluição coube ao desenvolvimento da área pictórica.
As inteligências inter e intra foram desenvolvidas através das conversas feitas com pesquisadores, pescadores e demais especialistas no levantamento de dados. E por fim, a reflexão da importância de se preservar motivou o florescimento da inteligência naturalista.


Nogueira, Nilbo Ribeiro. Pedagogia de projetos: uma jornada interdisciplinar rumo ao desenvolvimento das múltiplas inteligências, 6 ed. São Paulo; Érica, 2001.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Viva e deixe viver parte 4:

Tendo vista que outras formas de produção que fogem da racionalidade econômica devem ser fomentadas (por exemplo, a doméstica) para que os limites dos ecossistemas não sejam ultrapassados e as instituições que priorizam a livre troca de conhecimento sem que o mesmo esteja deformado por uma grade curricular ou seja meta de algum programa escolar, pergunto: como conciliar os dois elementos citados anteriormente com a produção industrial convencional e a escola? Uma parte do dia temos que nos dedicar a estudar e trabalhar formalmente, sendo que a outra proporção do tempo será reservada para atividades que priorizam a produção autônoma, tanto de serviços, quanto de produtos e conhecimentos. Qual é o método escolar de modo fazer o estudante utilizar o que aprendeu na escola, num outro período, fora das salas de aula, por meio de espaços educativos informais? Deve-se estimular a inteligência prática, a resolução de problemas reais e a criação de valores úteis à sociedade. Por isso é tão importante que haja a pluralidade de modos de produção paralelos. São muitas as competências que podem ser valorizadas dessa maneira. Há a inteligência lógico-matemática, linguística, espacial, corporal-cinestésica, musical, interpessoal, intrapessoal, naturalista, existencial, pictórica e emocional. A existência de tantas formas de inteligência nos permitem entender o porquê temos que realizar uma multiplicidade de atividades, como ler um livro, escrever um, conversar com um amigo, jogar xadrez, pintar um desenho, resolver uma equação ou outras tantas tarefas (que podem ser escolhidas livremente pelo sujeito) e que não são passíveis de atribuir um salário. A sociedade do consumo passará a ser a sociedade da ação e do lazer. O método passível de conjugar diferentes inteligências que propiciam a usufruto de uma atividade prazerosa é a pedagogia de projetos. Por projetos se entende uma irrealidade, uma referência ao futuro, algo passível de acontecer. Sonha-se, em primeiro lugar, para depois, traçar as metas do projeto, conciliando os objetivos do professor com os interesses do aluno.
Logo após, vem o planejamento que abarca as seguintes perguntas:

1)O quê – Sobre o que falaremos/pesquisaremos
2) Por quê – Por que estaremos tratando deste tema? Quais os objetivos?
3)Como – Como realizaremos o projeto? Como operacionalizaremos? Como poderemos dividir as atividades entre os membros do grupo?
4)Quando - Quando realizaremos as etapas planejadas?
5)Quem – Quem realizará cada uma das atividades? Quem se responsabilizará pelo que?
6)Recursos – Quais serão os recursos – materiais e humanos – necessários para a perfeita realização do Projeto?

Colocar tudo em prática significa romper com a passividade do aluno. Feito o projeto, deve-se depurá-lo. O aluno deve fazer autocrítica necessária a isso. Posteriormente, é feito apresentação e exposição do projeto. Partes da pesquisa, dados, bibliografias, relatórios, hipóteses testadas, acertos e erros cometidos serão adicionados a um processofólio. Na próxima postagem, apresentarei um exemplo de projeto já feitos, sua importância para a educação ambiental. logo após, numa outra postagem, apresentarei, conceitualmente, um exemplo de projeto meu ainda não testado.


Nogueira, Nilbo Ribeiro. Pedagogia de projetos: uma jornada interdisciplinar rumo ao desenvolvimento das múltiplas inteligências, 6 ed. São Paulo; Érica, 2001.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Viva e deixe viver - parte 3:




Escolhi o título “viva e deixe viver” nessa série de postagens para mostrar a necessidade de se desvincular das expectativas. Enquanto a expectativa é a crença de que algo programado e desejado nos mínimos detalhes irá ser alcançado, a esperança é a confiança inata na bondade e que algo de bom acontecerá naturalmente, porque este é o ciclo natural das coisas. O nosso moderno modelo de produção industrial, seus serviços institucionalizados e a produção sempre crescente de produtos instigada por uma demanda artificial fomentam a expectativas dos homens. Tudo está agora, a serviço de tecnocratas e da máquina burocrática. A realidade é a matéria-prima modelada pelo homem. Todavia, o as forças cegas do destino fazem a vida escapar da alçada das mãos humanas. Muitas pessoas estão infelizes em suas respectivas áreas profissionais, temos que engolir vastas quantidades de conteúdos e erudições desnecessárias durante a época escolar, estamos cada vez mais frustrados por não conseguirmos comprar o último e mais moderno produto. Ninguém sabe o dia de amanhã. Diferentemente do que aponta Illich, a solução não é abolir a escola, mas, sim, combiná-la com outras instituições educativas como apontadas anteriormente para gerar emprego, possibilitar o livre compartilhamento de informações e conhecimentos, fomentar o intercâmbio de habilidades e práticas para fazer florescer a inteligência prática e combiná-la com o currículo escolar. A produção industrial deve ser reduzida, diminuir a jornada de trabalho, utilizar ferramentas e instituições conviviais. Estas duas últimas serão responsáveis pelo advento de uma nova produção em paralelo ao industrialismo, a produção de valores de uso, coisas essenciais para a vida humana, coisas produzidas por um livre trabalho proporcionado pelo compartilhamento de saberes, conhecimentos e instrumentos. As cooperativas podem ter interesse em divulgar seus produtos em meu blog porque colocar a satisfação das necessidades humanas em detrimento do capital é, também, meu desejo.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Viva e deixe viver - parte 2:


A instituição de um serviço, a especialização dele, faz com que o mesmo escasseie. Assim é com a educação escolar e sua respectiva crise nacional. Contrariando a tendência, devemos dizer “sim” às instituições educativas que sirvam para a interação social, criativa e autônoma, valores não passíveis de serem hierarquizados. Ivan Illich dizia que é necessário abolir a escola e aprender com a vida. Não se espera por um currículo, mas, sim, pela livre iniciativa de aprender. As modalidades de aprendizagem chamadas de “teias de oportunidades” ilustram bem como a nova lógica educativa entra em jogo:

a) Serviço de consultar a objetos educacionais: proporcionar acesso dos aprendizes a jogos, máquinas, ferramentas, tecnologias fabris e laboratórios. Uma comunidade poderia montar um orçamento para financiar a rede de objetos educativos ou dar, para cada cidadão, um número limitado de créditos educativos para proporcionar acesso a materiais educativos.

b)Intercâmbio de habilidades: Esse serviço educacional consiste na institucionalização de centros livres, abertos ao público. Estes centros deveriam ser instaladas em áreas industriais para criar a demanda por empregos. Uma alternativa, também, seria dar créditos educacionais para a assimilação de habilidades fundamentais. Outros créditos iriam para quem ensinasse, daí, somente quem partilhasse seus conhecimentos poderia receber maiores doses dos mesmos. Testes específicos de habilidades poderiam encaminhar cada pessoa no local de trabalho condizente com o perfil.

c)Encontro de parceiros: O candidato se identifica, dando nome e endereço, descrevendo o tema para ser discutido com um parceiro. Um computador lhe remeteria os nomes e endereços de todos os que tivessem dado a mesma descrição.

d)Educadores profissionais: Profissionais requeridos para manejar as redes descritas, orientar estudantes e demais interessados.

A partir daí, poderemos libertar todo o potencial educativo, instigar o senso investigativo das pessoas, sua autonomia, livre iniciativa e fazer crescer o genuíno desejo de aprender. Na próxima postagem, falarei sobre o porquê dos ensinamentos de Illich serem tão atuais e o motivo pelo qual o cooperativismo tem muito a ganhar ao investir no blog.


LLICH, Ivan. Sociedades sem escolas. 7 ed. Petrópolis: Vozes, 1985.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Viva e deixe viver - parte 1:


No livro “A Convivencialidade” de Ivan Illich, é exposta uma teoria acerca dos limites naturais do crescimento da sociedade humana. As características técnicas, necessariamente limitadas, nos meios de produção, é que podem propiciar a viabilidade da sociedade humana. Afinal de contas, uma sociedade que define o que é o bem com base no maior consumo de bens e serviços mutila a autonomia do indivíduo. Em contrapartida, a sociedade convival propõe a possibilidade de ação autônoma, criativa. Medidas simples como o saneamento, a clorização da água, caça-mosquitos e atestados de não contaminação exigidos são mais eficazes do que a institucionalização de serviços complexos. A ferramenta manejável, demandadora de energia metabólica, multivalente como serrote martelo ou o canivete, é diferente da ferramenta manipulável. Este última demanda outras formas de energia, como o avião supersônico. Certas instituições são naturalmente, convivais, como o telefone, porque possibilitam o livre compartilhamento de informações. A ferramenta manejável convida ao uso convival. Tomemos um exemplo: O código de urbanismo impõe normas para prescrever como se constrói e, ao mesmo tempo, escasseia os alojamentos. Uma política convival ocupar-se-ia de proporcionar material para construção civil autônoma. Do contrário, a especialização e institucionalização escasseiam o serviço. Urge diversificar os modos de produção. Propor leis que impõem limites à produtividade, especialização ou o monopólio radical industrial.

LLICH, Ivan. Convivencialidade. Lisboa, Publicações Europa-América, 1976 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Carta aberta a Gustavo Ioschpe:
 Caro Sr. Ioschpe:

Aquele aluno que estuda com afinco pode acabar numa função profissional que não goste. Karl Marx afirmava que há um "exército industrial de reserva", um número de pessoas que excede a capacidade capitalista. Estas ficam desempregadas, são "sobrantes". Não há muita prática nas aulas.  Ainda que um estudante admire uma profissão, não significa que ele tenha talento para ela. Muitos agrônomos acabam atuando como vendedores de agrotóxicos, arquitetos fazem mais reforma do que projetos, fotógrafos registram mais imagens para cardápios do que para editoriais de moda, engenheiros apenas constroem planilhas. Você, caro Ioschpe, é contra a ideologização, correto? Fala da necessidade de um currículo sem viés progressista. Responda: por que precisamos aprender sobre princípios da ecologia, por exemplo?  Aposto que o significado da palavra "abiótico" nem se passa na cabeça de um cantor de sertanejo universitário e ainda, assim, ele ganha muito mais do que um professor. No entanto, todos precisamos saber sobre ecologia. Uma boa aula de educação ambiental faz com que o aluno perceba o nexo entre o desenvolvimento econômico o esgotamento de recursos naturais. Todos nós, enquanto cidadãos, temos responsabilidades para com o meio ambiente, desde o professor de ecologia, até o cantor de sertanejo universitário. Mas, isso já entra no campo do engajamento político Daí, você afirma que tudo é proselitismo... Interdisciplinaridade entre ciências humanas, sociais e exatas implica no fomento da cidadania. Nossa democracia tardia não é o melhor modelo, porque participamos da política apenas em época de eleições. Só haverá educação quando ampliarmos o nível de consciências das pessoas, participarmos da política e isso implica, necessariamente, numa escola fraterna e que acolhe a todos.